O olhar por trás dos números: riqueza e desenvolvimento

Os dados do Produto Interno Bruto (PIB)[1] municipal divulgados em dezembro de 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) são reveladores e ao mesmo tempo nos levam a refletir em que medida esse indicador retrata com fidelidade a situação realmente vivenciada pelos munícipes capixabas.

As dez cidades capixabas mais ricas são, em ordem: Vitória, Serra, Vila Velha, Cariacica, Presidente Kennedy, Aracruz, Linhares, Cachoeiro de Itapemirim, Itapemirim e Colatina. O fato das grandes cidades da região metropolitana de Vitória e as cidades polos do interior estarem entre as mais ricas não é grande novidade. Ressalta-se sim, a presença de Presidente Kennedy, município produtor de petróleo, com população estimada em onze mil habitantes e um PIB de R$5,8 bilhões, resultando num PIB per capita de R$513,13 mil. Esses números colocam o município capixaba como o mais rico do país, segundo este indicador.

PIB per capita por faixas de distribuição – Espírito Santo 2015

Fonte: IBGE/IJSN – http://ijsn.es.gov.br/component/attachments/download/5986

Só para se ter uma ideia, o município brasileiro que ficou em segundo lugar, Paulínia/SP, que possui a maior refinaria em capacidade de processamento de petróleo do país, apresentou um PIB per capita de R$276,97 mil, pouco mais da metade da riqueza do município capixaba.

Será mesmo? Vejamos. Presidente Kennedy com uma taxa de ocupação da sua população em torno de 22,2%, renda média do trabalhador formal em torno de 2,4 salários mínimos, apresentou Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM 2013) de 0,7203 (42º posição no estado), Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) anos iniciais do ensino fundamental de 6,4 e anos finais 3,4, taxa de esgotamento sanitário adequado de 38,6% (IBGE/Censo 2010) e urbanização de vias públicas de 10% (IBGE/Censo 2010), parece distante de ser um município desenvolvido. É um município gerador de riqueza, mas esta não é distribuída/absorvida pelos seus moradores.

Comparativamente, o município paulista de Paulínia com uma taxa de ocupação formal da sua população em torno de 48,9%, renda média de 4,9 salários mínimos, e IFDM 2013 de 0,8005 (187º no estado), IDEB anos iniciais do ensino fundamental de 6,4 e anos finais 4,9, esgotamento sanitário adequado de 94,1% (IBGE/Censo 2010) e urbanização de vias públicas de 47,8% (IBGE/Censo 2010) embora tenha gerado menos riqueza por habitante, consegue transformar melhor a riqueza produzida em bem-estar para os seus munícipes.

Riqueza gerada e distribuída parece não fazerem parte do mesmo contexto. Ou seja, não basta apenas olhar para os números. É preciso analisá-los com cuidado, compreender todo o contexto que os envolve. A riqueza gerada pelo petróleo necessita ser transformada e aplicada na melhoria da infraestrutura e de provisão de serviços públicos de qualidade aos cidadãos. Crescimento é diferente de desenvolvimento. O país só conseguirá reduzir as suas desigualdades econômicas e sociais quando souber conciliar estas duas coisas. É preciso aumentar o tamanho do bolo, mas, tão importante quanto, é criar condições para que mais pessoas possam participar da sua distribuição.

[1] Para acessar o documento completo: http://www.ijsn.es.gov.br/artigos/4963-produto-interno-bruto-pib-dos-municipios-2015

 

Prof. Me Antônio Ricardo Freislebem
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