Somos Todos Aprendizes

Acredito que esse momento de início de um novo bimestre e seu desdobramento nos próximos dias e meses despertam diversos sentimentos em todos nós. Alguns diriam que sentem alegria; outros ansiedade e ainda outros euforia. Sentimentos legítimos e naturais dada as circunstâncias!

Nessa oportunidade, gostaria de refletir a respeito de um sentimento possível de ser encontrado nesse contexto de ingresso no ambiente acadêmico: a insegurança. De acordo com o dicionário, “insegurança” é ausência de segurança, de certeza ou convicção. Os sinônimos de “insegurança” são: inquietação, vulnerabilidade, desconfiança, etc. Nessa acepção, a pessoa insegura é aquela que se vê vulnerável / inquieta diante da vida e de suas demandas.

Bem, geralmente a insegurança é pensada de forma negativa, condicionada ao medo ou receio de tomar uma decisão, mas, desejo defender a ideia de que o fato de se sentir essa insegurança não é de todo ruim, visto que é possível pensar uma insegurança / vulnerabilidade que nos coloca a caminho do conhecimento e que nos faz despertar para a necessidade de se permitir o novo e ainda o inalcançável. Mario Sergio Cortella menciona em seu livro “Qual é a tua obra” que: “Reconhecer o desconhecimento sobre certas coisas é sinal de inteligência e um passo decisivo para a mudança”.

É perceptível na grande maioria das pessoas o sentimento de insegurança e vulnerabilidade, a consciência de incompletude, ou seja, a sensação de que não estão prontas, preparadas, acabadas ou finalizadas. Embora elas não percebam de imediato, o que provavelmente está acontecendo é que simplesmente estão à caminho, mesmo que a expectativa das pessoas, em geral, seja sempre a de “chegada” e não “caminhada”.

Quem está à caminho, tem consciência de suas limitações; considera a possibilidade de se expor ao desconhecido; reflete sobre a fragilidade humana em compreender às complexidades do mundo; torna-se mais sensível às necessidades dos outros e entende que sozinho não é possível alcançar os objetivos idealizados.

A caminhada acadêmica não é um espaço para os que veem o mundo pronto, ordenado e definido. É, na verdade, um laboratório no qual os saberes estão sendo constantemente explorados, analisados e testados. Desse modo, o que se pretende através desse sistema é a fomentação de novas experiências que transformarão o objeto de estudo e o estudante num processo continuo de desenvolvimento. Ou seja, o que eu aqui proponho é que não se compreenda a relação sujeito-objeto em termos de causa e efeito, mas nos termos de uma relação de interdependência, em que tanto os sujeitos constrói o seu objeto, como por ele é construído. Assim, o que se espera de nós alunos, professores, colaboradores é que sejamos protagonistas na construção de saberes, mas, que ao mesmo tempo, também sejamos afetados por esses mesmos saberes e cresçamos como pessoas no melhor sentido da palavra.

Acredita-se que ao longo do processo de imersão no ambiente universitário três movimentos são necessários: o primeiro é o da perplexidade (espanto). É natural que num primeiro momento uma enxurrada de informações os impressionem e sugira entendimentos contrários a tudo o que você sabia sobre determinado assunto. O que fazer com tanta informação? Essa é um pergunta sempre difícil de ser respondida!  A razão: as vezes não existe uma única resposta possível, são muitas as realidades e aprendemos no ambiente universitário que é preciso reconhecer a brevidade dos conceitos. Portanto, estar a caminho, é uma condição para a vida toda.

Ao contrário dos seguros, prontos e finalizados que pensam deter o saber, aqueles que se sentem inseguros / vulneráveis, veem na perplexidade um caminho para que as informações se transformem em um conhecimento razoável e útil para o seu contexto. Contudo, para isso acontecer, é necessário um segundo movimento, o da desconstrução. A desconstrução é um movimento de se deixar moldar por novas ideias; é deixar-se atravessar por conceitos, valores e pensamentos que enfraquecerão as nossas bases e nos levarão para o terceiro movimento, o da reconstrução.  A reconstrução por sua vez, é o movimento de acomodação dos novos saberes e a base dessa ação é o diálogo, interatividade e humildade pedagógica.

É importante ressaltar que esses três movimentos não devem acontecer uma única vez em nossa vida, ao contrário, esses movimentos precisam ser cíclicos, periódicos. Assim, alcançaremos um espaço educacional mais flexível, humano e em sintonia com as necessidades das pessoas.

Finalizo, considerando que é de bom tom, portanto, que trabalhemos as nossas inseguranças e vulnerabilidades para o nascimento / surgimento de um indivíduo ensinável e flexível. Pensando assim, quero fazer parte de uma instituição em que seus colaboradores não se veem prontos; quero interagir com professores que estejam à caminho e, por fim, quero lecionar e aprender com alunos que sejam ensináveis.

Gosto da afirmação do príncipe da Cinderela, quando questionado pela futura princesa sobre quem ele era, imediatamente responde: “Eu sou um aprendiz, ainda aprendendo o meu oficio”.

Se alguém lhe perguntar “quem é você?” sugiro que reconheça que a resposta do príncipe é razoável: “Eu sou um aprendiz, ainda aprendendo o meu oficio”.

 

Professor Me. Clayton Machado 
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3 pensamentos em “Somos Todos Aprendizes”

  1. O lado bom de não saber é que estarei em constante aprendizagem. A bagagem nunca estará cheia durante a viagem do conhecimento, pois sempre temos algo a ser acrescentado.
    A fase da desconstrução é inevital e contínua (ainda mais se vc tem professores que te proporcionam a isso) e é maravilhosa ao mesmo tempo que me deixa inquieta… A aceitação dessa desconstrução é pedra… Mas nada que uma água calma e persistente não perfure.
    Amei o texto.
    Edificante.
    Dani Adami

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